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Miguel Judas

Lelê: “A indústria das tatuagens ainda tem um longo caminho a percorrer em termos de sustentabilidade”

14 Apr 2025 - 09:00

Entrevista

Já há um estúdio em Portugal onde é possível realizar tatuagens veganas e eco-conscientes. Chama-se Jardim Ecotattoo e fica situado na zona de Campo de Ourique, em Lisboa, onde a tatuadora Lelê tem vindo a operar uma pequena revolução nesta atividade, usando apenas materiais sustentáveis e amigos do ambiente, como revela nesta entrevista ao GreeneFact.

Formou-se em Design Gráfico e desde 2014 que trabalha em ilustração. Desde o início que começou a receber pedidos de desenhos, de pessoas que queriam tatuar as suas criações. Decidiu então aprender a tatuar e começou a fazê-lo de forma profissional em 2016, mas só abriu um estúdio próprio quando encontrou materiais de impacto reduzido. Isto porque desde o início que a sustentabilidade sempre foi uma das suas principais preocupações e objetivos. Começou por utilizar materiais veganos (sem ingredientes de origem animal e não testados em animais) para tatuar, mas sentia-se incomodada com a quantidade de lixo gerado durante as sessões – luvas, barreiras de proteção de superfícies e equipamentos ou restos de tinta, que depois de cada sessão têm de ser descartados. Mas Lelê estava determinada a conceber uma experiência de impacto ambiental reduzido e não parou enquanto não a alcançou. Em 2023 nascia finalmente o Jardim Ecotattoo, em Lisboa, um estúdio decorado com plantas, pinturas de botânica e mobiliário vintage, que reflete todos os valores defendidos por Lelê. Porque se as tatuagens são para sempre, o desperdício gerado não tem de o ser.

 

Como é que surgiu esta vontade de aliar a ecologia às tatuagens?

Era algo que me interessava, porque quando comecei a tatuar praticamente não havia materiais ecológicos. Incomodava-me muito o desperdício, mas não podia fazer nada sobre isso. Sentia que enquanto trabalhava estava sempre a gerar resíduos e a descartar coisas, porque o material é todo de uso único. No fundo, essa vontade surgiu devido ao meu descontentamento e desconforto pela quantidade de lixo gerado.

 

E conseguiu mudar esse paradigma?

Pouco a pouco começaram a surgir algumas opções de materiais. Não foi logo tudo e ainda demorou algum tempo até surgiu material de boa qualidade também. Aliás, as primeiras marcas que começaram a aparecer já nem são as que uso hoje dia. O último material a surgir e que me faltava para tornar o estúdio verdadeiramente ecológico eram as luvas, que já existiam nos Estados Unidos e no Canadá, mas eu não tinha como importar. E não ia importar luvas, porque isso também não seria nada ecológico, devido à pegada ecológica. Portanto, acabei por esperar um bocadinho e, quando apareceram finalmente umas luvas feitas com plástico à base de plantas, decidi que era o momento. Finalmente podia abrir o meu estúdio e dizer que era ecológico, sem faltar nada.

 

Como é que os clientes têm reagido?

O meu público já era muito consciente ao nível da parte vegana, porque sempre usei materiais veganos. Logo em 2016, quando aprendi a tatuar, já usava materiais veganos. Tintas, líquidos, materiais de limpeza, tudo é vegano. E grande parte do que uso também é biodegradável, como é o caso do desinfetante. Portanto já tinha algumas pessoas a escolher o meu trabalho por ser vegana. Ou seja, percebi que além de gostarem do estilo e dos desenhos, claro, escolhiam-me por usar material vegano. Mas também é importante realçar que a parte vegana não é a que tem mais ou menos impacto, mas sim os plásticos. Isso é que tem mesmo um impacto real a nível ambiental na tatuagem. E era por isso que eu estava à espera de ter todos os materiais para poder ter um estúdio ecológico, até porque ser vegano não significa necessariamente que é ecológico.

Fundado em 2023 pela tatuadora Lelê, o Jardim Ecotattoo é o primeiro espaço em Portugal onde é possível realizar tatuagens veganas e eco-conscientes.

A indústria das tatuagens já despertou para as questões ambientais?

De certa forma sim, mas ainda há um longo caminho a percorrer.

 

É fácil de arranjar este tipo de material?

Os materiais veganos sim, sem dúvida. Existem cada vez mais marcas, algumas excelentes, e não representa um grande salto de preço, pois por vezes até o mesmo que os outros materiais. Mas sinto que o mercado está muito para o lado vegano. Já são poucos os materiais que não se dizem veganos, e quando não o dizem é porque de facto não são. Curiosamente, uma das melhores marcas de tintas, não o diz na embalagem e também o é, mas nesse caso deve ser por causa da malta mais old school (risos).

 

Os tatuadores também já estão mais atentos a estas questões, nomeadamente a reduzir o uso do plástico?

Depende da pessoa. Se tem essa preocupação no seu dia-a-dia, diria que sim. Conheço alguns que têm essa preocupação e que acham incrível o meu trabalho, mas de facto não sabiam que era possível fazer uma sessão de tatuagem só com materiais ecológicos. Claro que por vezes são necessárias algumas adaptações e também depende sempre se a pessoa se adapta melhor ou não a isso. Continua a ser uma decisão muito pessoal e não uma espécie de movimento geral dentro desta atividade. Por outro lado, isso pode acabar por influenciar na decisão dos próprios clientes, se também se preocupar com essas questões. E, às vezes, não é por mal que as pessoas sequer pensam nisso. Chegam, fazem tatuagem e o lixo fica cá. É a parte má da tatuagem em que ninguém quer pensar. É o tatuador que fica aqui com o lixo e tem de lhe dar destino, não é?

No geral, a indústria ainda está muito… Não digo atrasada, mas que ainda não está normalizada e tem um longo caminho a percorrer. E até é algo que me incomoda muito, quando vejo trabalhos de artistas que se dizem inspirados pela natureza. Então têm a opção de usar um material mais sustentável e não o fazem porquê?

 

Não será apenas por desconhecimento?

Acho que é mesmo só por ser mais caro. É mesmo muito mais caro. Portanto, também não é vantajoso a nível económico ter esses materiais, porque a tatuagem acaba por ter custos muito mais altos e isso aumenta o preço da própria tatuagem. Eu, no entanto, vejo isso como um valor e hoje em dia não me vejo a tatuar de outra forma. E mesmo quando tatuo noutros sítios, que não o meu estúdio, levo sempre o meu material. Decidi que não quero voltar a usar plásticos, películas plásticas ou o que seja. Mas é muito injusto porque, a nível de custos, um plástico é muito mais barato que um bioplástico. Mesmo muito mais barato.

As tatuagens de Lelê destacam-se pelo seu estilo minimalista e delicado. Flores, folhas, ramos e objetos do quotidiano são temas comuns nas suas criações.

Normalmente quando se escolhe um tatuador, fica-se fiel a esse tatuador. Sente que as pessoas também já a procuram por ser uma tatuadora ecológica ou ainda é mais pelo traço e pelo estilo?

Creio que não me procurariam se não gostassem do meu estilo, mas já houve pessoas, especialmente estrangeiros, que assinalaram o meu estúdio no Google maps como vegan tattoos e isso já tem atraído algumas pessoas. O mais importante é que todos os meus clientes acham incrível a parte dos plásticos e ficam sempre muito surpreendidos. Tenho muitos clientes estrangeiros que trabalham na área da sustentabilidade e acham mesmo incrível esse detalhe! Fico super orgulhosa com isso!

 

Quando é que conseguiu livrar-se dos plásticos?

Há dois anos que o meu estúdio é totalmente sustentável.

 

A grande maioria dos produtos usados no Jardim Ecotattoo são orgânicos. Os plásticos foram substituídos por alternativas plant based, feitas de amido de milho ou trigo, inclusive o cartucho da própria agulha.

Em termos de custo, qual é a diferença?

Depende do material. Lá está, o material vegano é mais ou menos a mesma coisa. Mas os plásticos são muito mais caros. O bioplástico pode ser até 30, 40 vezes mais do preço do plástico comum. O que me deixa muito triste, porque um material com muito menos impacto ambiental e devia ser mais propagado e de mais fácil acesso, mas acaba por ser um produto muito elitista. Entristece-me um bocado, mas mesmo a nível geral os materiais sustentáveis ainda são muito, muito mais caros. E ainda há as agulhas. As agulhas normais têm uma parte de plástico e as que uso são em papel de trigo. Só existem três marcas com este tipo de material e quando vejo alternativas novas no mercado gosto de experimentar.

 

E para o cliente, o preço também é mais alto?

A minha tabela de preços é a partir de 120 euros. Se forem mini tatuagens, do mesmo do tamanho de uma moeda de um cêntimo, é a partir de 105. E tenho uma coleção temática do 25 de abril, com uma tabela a partir de 95. Não quero que as minhas tatuagens sejam inacessíveis e por vezes faço tatuagens a preços promocionais para chegar a diferentes públicos, porque sei que há pessoas que se calhar não podem pagar estes preços.

 

Nos workshops de tatuagem que faz a preocupação ambiental também está presente?

Neste momento tenho dois workshops, uma para pessoas que estão a começar do zero, e nesse caso a maioria das pessoas que aparecem já tem esse cuidado do pessoal a nível ecológico no seu dia-a-dia. E tenho um outro workshop para tatuadores, só sobre os materiais, no qual partilho o meu caminho em direção à sustentabilidade e como podemos adaptar o dia-a-dia do estúdio a essa nova realidade, de forma a torná-lo mais ecológico mas também para reduzir o consumo de materiais. Se eu não tivesse já o meu portfólio, se calhar as pessoas não chegavam até mim, mas gostaria muito que a parte ecológica representasse uma boa parte do reconhecimento, até pelo esforço que tenho feito nesse sentido.