Entrevista
De que forma o contacto com a natureza influencia o nosso estado psicológico e emocional?
Estar em contacto com a natureza reduz os níveis de cortisol (hormona do stress), diminui a pressão arterial e a atividade da amígdala (área cerebral associada ao medo e à ansiedade). Isto resulta numa redução dos sintomas de stress, ansiedade e depressão, além de promover sensações de calma, bem-estar e conexão.
Há evidência científica que comprove os benefícios da exposição regular a ambientes naturais?
Sim. Um dos estudos científicos mais conhecidos foi publicado na revista Nature Scientific Reports, em 2019, e demonstrou que passar pelo menos 120 minutos por semana na natureza está associado a melhorias significativas na saúde física e bem-estar psicológico.
Porque é que práticas simples como caminhadas em parques ou florestas têm um impacto tão significativo no bem-estar mental?
Essas práticas reduzem os pensamentos negativos repetitivos, promovem a atenção plena e aumentam a produção de serotonina e endorfinas, substâncias associadas ao humor. Além disso, o contacto com ambientes verdes ativa o sistema nervoso parassimpático, promovendo a sensação de relaxamento.
A psicóloga Isa Silvestre aconselha por aconselhar pausas diárias de 10 a 15 minutos ao ar livre e algumas caminhadas semanais em parques para começar a incorporar mais natureza no dia-a-dia.
O que é exatamente a ecoterapia e como se diferencia de outras abordagens terapêuticas?
A ecoterapia difere das terapias tradicionais por ocorrer ao ar livre e integrar o ambiente natural como parte ativa do processo terapêutico. Pode incluir atividades como jardinagem, caminhadas terapêuticas e mindfulness em espaços naturais.
A meditação ao ar livre pode potenciar os seus efeitos em comparação com a meditação em espaços fechados?
Sim. O ambiente natural oferece estímulos visuais e sonoros suaves que favorecem o relaxamento e reduzem a distração. Além disso, a luz natural e o ar fresco amplificam os benefícios fisiológicos da meditação, como a regulação da respiração e o aumento da atenção plena.
Existem populações ou faixas etárias que beneficiam mais do tempo passado ao ar livre?
As crianças e os idosos. As crianças desenvolvem melhor capacidade de atenção, concentração, competências sociais e resolução de problemas. Os idosos apresentam menos sintomas depressivos e melhoram a capacidade cognitiva. Contudo, os adultos também beneficiam, especialmente os que vivem sob elevados níveis de stress.
As crianças e os idosos são as faixas etárias que beneficiam mais do tempo passado ao ar livre.
Em contextos urbanos, onde o contacto com a natureza é mais limitado, que estratégias pode sugerir para tirar partido destes benefícios?
Visitar parques urbanos regularmente, ter plantas em casa ou no local de trabalho ou praticar jardinagem em varandas ou hortas comunitárias.
A ligação à natureza pode ser um fator protetor a longo prazo para a saúde mental?
Estudos longitudinais demonstram que uma forte conexão com a natureza está associada a menor sintomatologia depressiva e ansiosa, a maior resiliência emocional e a maior satisfação com a vida ao longo do tempo.
Como é que a privação de natureza, comum em estilos de vida urbanos e digitais, afeta a nossa saúde mental?
Está associada a maior prevalência de stress crónico, fadiga mental, défice de atenção, ansiedade e depressão.
Que tipo de rotina ou prática recomendaria a alguém que queira incorporar mais natureza no seu dia-a-dia, mesmo com pouco tempo disponível?
Começaria por aconselhar pausas diárias de 10 a 15 minutos ao ar livre num jardim, varanda ou passeio curto, seguidas de algumas caminhadas semanais em parques; A partir de dado momento podem-se começar a fazer exercícios de mindfulness com foco nos elementos naturais que nos rodeiam, como a luz, os som e os cheiros. E cultivar plantas em casa ou cuidar de um pequeno jardim também é um tipo de atividade que funciona como quebra à rotina citadina.