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Rafael Nabais

Mergulho sonoro num Tejo desconhecido

2 May 2025 - 09:00

Descodificador

Sigamos o xarroco e os seus coros subaquáticos para dar mais ouvidos ao ambiente. Ligar as pessoas à natureza através do som foi o principal objetivo de Francisca Rocha Gonçalves na sua instalação, Interferências no Tejo, patente desde hoje e até 19 de maio, no centro de arte Moderna da Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Uma exposição imersiva onde a artista e investigadora dá a conhecer os peixes vocais, espécies que se tornaram quase inaudíveis, devido à poluição sonora introduzida pela atividade humana no rio.

O que sentirá um peixe, quando passam os barcos no Tejo ou estão perto de uma zona mais ruidosa?  Fazer o público ter esta experiência foi a intenção de Francisca Rocha Gonçalves, artista multidisciplinar e investigadora radicada em Berlim, onde leciona no Bard College, ao conceber a sua mais recente instalação, Interferências no Tejo.

Realizada com a Bauhaus of the Sea Sails, projeto promovido pela Comissão Europeia com o objetivo de acelerar a implementação do Pacto Verde (Green Deal), esta exposição pode ser vista e ouvida no Centro de Arte Moderna (CAM) da Gulbenkian, onde traz à superfície desconhecidas paisagens sonoras, assumindo-se como uma chamada de atenção para a necessidade de preservação da vida marinha.

“Há muita falta de conexão entre a natureza e as pessoas que vivem na cidade”, diz a artista. “No fundo, a exposição é um meio de partilha de sons e ambientes sonoros que normalmente não experienciamos, porque não vivemos debaixo do mar”.

A instalação Interferências no Tejo está patente até 19 de maio no centro de arte Moderna da Fundação Gulbenkian, em Lisboa.

A construção das soundscapes de Interferências no Tejo resultou de várias expedições de barco no rio e misturou outras gravações de peixes vocais como o xarroco e a corvina, cedidas pelo Fish Bioacustics Lab, da Faculdade de  Ciências da Universidade de Lisboa. “Focámo-nos mais na zona de Oeiras, mas também chegámos a fazer passeios ao Seixal e noutras zonas mais calmas”, explica a autora da instalação. “Como estava interessada na parte da poluição, gravámos também muito perto da entrada e saída dos cargueiros e outros barcos”. Aos registos sonoros naturais, acrescentou depois o trabalho artístico, ou seja “uma parte mais artificial, no sentido de criar e recriar algumas frequências, enfatizar e construir uma narrativa”, acrescenta.

E foi durante a criação dos vários ambientes sonoros que Francisca Rocha Gonçalves se surpreendeu com o facto dos peixes comunicarem e vocalizarem mais do que pensamos. “Para a maioria das pessoas a ideia é que os peixes não fazem qualquer som”, observa.  Mas pelo contrário, não só comunicam, através de vocalizos, como alguns até fazem coros. Uma surpreendente atividade coral que, no caso dos xarrocos e segundo a investigadora, é “fantástica”.

“Juntam-se todos, numa estratégia adaptativa, e fazem ninhos muito perto uns dos outros para terem mais sucesso ao chamarem as fêmeas”, salienta. “Com os coros conseguem assim mais volume e é maior a probabilidade de elas os ouvirem. Depois escolhem o ninho que as agrada mais”.

A artista, que no seu trabalho alia investigação científica, exploração criativa e ativismo ambiental, faz escutar o rio através dos ruídos submersos, propondo que os visitantes se sintam, de alguma maneira, na pele dos peixes.

A poluição sonora do Tejo, no entanto, faz com que o som dos peixes vocais fique, de certa forma, abafado e, como tal, pouco audível, o que tem consequências nocivas. “Há vários efeitos desde logo na alteração de comportamentos, na questão da reprodução, e até num trauma acústico de surdez… Depende da situação, do tipo de som e da espécie de que estamos a falar, mas está comprovado cientificamente que as nossas atividades os afetam”, diz.

E sublinha: “Ao longo da história da evolução, os animais tiveram uma capacidade de ouvir e produzir sons adaptados ao ambiente, mas a rapidez com que nós introduzimos novas frequências por máquinas ou barcos, não deu tempo evolutivo para algumas espécies se adaptarem e, portanto, não conseguem ultrapassar os sons introduzidos pelo homem que são mais intrusivos e ruidosos”.

Para que o canto do xarroco não seja um canto de cisne, há que dar ouvidos ao meio ambiente. Interferências no Tejo, que está até dia 19 de maio, na Sala de Som, do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, junta a ciência e a arte para chegar a vários públicos e a artista, que no seu trabalho alia justamente a investigação científica, a exploração criativa do som, o multimédia e o ativismo ambiental, faz escutar o rio através dos ruídos submersos, dos estalidos dos camarões ao rumor das ondas e dos seixos, mas também da vibração, propondo que os visitantes se sintam, de alguma maneira na pele dos peixes.

“Há na instalação um banco que vibra. Em ambientes aquáticos a vibração é importante e todos os peixes a sentem”, adianta. “Procuro dar esta experiência sensorial, para nos conectarmos emocionalmente e tentarmos perceber que há este problema. E é bom começarmos a falar e dialogar também sobre estes tópicos sonoros e ruidosos”.

Um diálogo necessário, até porque nem sempre os efeitos prejudiciais da poluição sonora nos ecossistemas marinhos são considerados no contexto da sustentabilidade e biodiversidade. Ainda ao abrigo da residência artística de Francisca Rocha Gonçalves, A Call to the Sea, na Bauhaus of the Sea Sails, vai ser inaugurada uma ‘releitura’ do Aquário Vasco da Gama, que põe em evidência as espécies vocais e as que comunicam através da luz, e haverá também uma performance no Oeiras Valley Science, Arte e Ciência, ambas a decorrer em maio.