Descodificador
As imediações do Forte do Bugio são investigadas pela equipa do ProCASC, um projeto de Arqueologia Subaquática do Município de Cascais. Em 2018, no decurso de uma prospeção em torno de um sítio denominado Bugio 1 foram avistados os restos de uma Nau da Índia.
Conforme conta o Comandante Augusto Salgado – Capitão de Mar e Guerra da Armada, Historiador e Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigador no Centro de Investigação Naval e no Centro de História da mencionada Faculdade –, “foi avistada a estrutura da nau S. Francisco Xavier, os canhões, grãos de pimenta, fragmentos de porcelana chinesa e outros objetos”.
A descoberta, por ter coincidido com uma declaração de achado fortuito na zona, foi objeto de polémica durante alguns anos. “Os destroços da nau encontram-se separados em diversos núcleos dispersos, coincidindo com os relatos da época, que mencionam que o navio se partiu em várias partes devido à força do mar”, detalha o investigador.
Os vestígios da nau S. Francisco Xavier encontram-se a doze metros de profundidade espalhados por uma área com pelo menos 50 metros de largura e 100 metros de comprimento.
A maioria desses núcleos encontram-se atualmente cobertos pela areia, estando assim naturalmente protegidos. Foram avistadas diversas peças de artilharia de fundição portuguesa e verificou-se que as características da construção eram muito parecidas com as da nau Nossa Senhora dos Mártires, naufragada na zona de S. Julião da Barra, em Carcavelos, em 1606.
Tal facto permitiu a conclusão, logo no momento da descoberta, de que eram vestígios de uma nau da Índia.
Os vestígios da nau S. Francisco Xavier encontram-se a doze metros de profundidade espalhados por uma área com pelo menos 50 metros de largura e 100 metros de comprimento. Foi efetuado um primeiro posicionamento com GPS e através do levantamento da área com sonar de varrimento lateral e levantamentos fotogramétricos dos principais depósitos da nau.
“Com a visibilidade normal entre um e dois metros, a relação entre os vários depósitos de materiais não é evidente, porque no fundo não temos referências espaciais suficientes entre os núcleos. Só a projeção em cartografia permite avaliar a relação entre estes vestígios e programar as intervenções futuras.”, explica o arqueólogo e mergulhador José Bettencourt, Investigador do CHAM – Centro de Humanidades da FCSH/NOVA/UAL, especializado em arqueologia subaquática e marítima, História do Atlântico, divulgação e gestão do património cultural subaquático e atualmente na direção do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática.
Além da estrutura da nau S. Francisco Xavier, foram identificados canhões, grãos de pimenta, fragmentos de porcelana chinesa e outros objetos.
A fotogrametria utilizada para registar os vestígios da nau S. Francisco Xavier no sítio identificado como Bugio 2 consiste numa cobertura sistemática com fotografias de grande superposição do objeto a registar.
Esta técnica permite o processamento com softwares específicos que possibilitam a obtenção de uma nuvem de pontos muito densa, para as quais há coordenadas X, Y e Z, sabendo-se assim qual é a sua localização exata no espaço.
Esses pontos podem depois ser utilizados como base para a criação de malhas às quais podem ser aplicadas texturas, permitindo vários outputs, como por exemplo ortomosaicos, que são vistas planificadas do objeto.
“Podemos assim criar modelos digitais do terreno e ver qual é o relevo, o que é útil para a investigação. Ou podemos ainda criar modelos 3D, que permitem obter medidas muito rigorosas, facilitando a implementação de estratégias de divulgação (realidade virtual, realidade aumentada)”, detalha Bettencourt, explicando que este trabalho está a ser realizado por uma equipa conjunta da Câmara Municipal de Cascais-CMC, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas FCSH da Universidade Nova de Lisboa e da Escola Naval, com apoios da Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental-EMEPC e do Porto de Recreio de Oeiras.