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Bernardo Simões de Almeida

Quando nos vamos livrar do petróleo?

29 Feb 2024 - 10:00
É uma pergunta premente dos nossos dias, fazendo já parte de um quotidiano incomodo, em conflito entre a urgência de mudar o rumo atual das políticas ambientais e a lentidão dos processos onde a mudança realmente é suposta acontecer. Porém, a resposta não se afigura simples e também não é animadora.

Convém começar por recordar que o petróleo é já em si uma transição energética, pois veio substituir o carvão como fonte de energia e só atingiu a sua hegemonia na segunda metade do século XX. E também perceber que o petróleo não é apenas utilizado para o combustível, muito embora seja essa a sua face mais reconhecida.

De acordo com a Visual Capitalist, uma publicação digital canadiana focada em energia e economia global, é possível transformar um barril de petróleo em inúmeros produtos que afetam vários sectores da economia. Entre eles, está a possibilidade de gerar cera suficiente para 170 velas de aniversário, 540 escovas de dente, 39 T-shirts de polyester, 135 bolas de borracha ou 750 pentes de bolso. Isto sem esquecer os 64 quilómetros que um camião pode percorrer, 450 se for um carro de tamanho médio. Este mesmo barril consegue ainda produzir 70kWh de eletricidade gerado por combustível residual e 3.8 litros de asfalto.

Depois há as implicações políticas e interesses privados. A COP28 é um bom exemplo disso. O acordo selado no Dubai em dezembro do ano passado, para gradualmente largar a produção de combustíveis fosseis, parece ser apenas uma formalidade mais perto de um greenwashing do que um acordo sério.

O relatório produzido pela The Production Gap, mostra que os maiores produtores de petróleo não possuem nenhum plano para a transição (que é denominada de phase-out) e em conjunto produzirão até 2030, cerca do dobro das emissões que seria necessário para a marca do 1.5 graus do aquecimento global.

O petróleo é já em si uma transição energética, pois quando começou a ser usado veio substituir o carvão como fonte de energia.

Um artigo publicado pela agência Reuters ilustra bem a posição dos interesses económicos por parte da OPEC. Este grupo de 13 países, responsáveis por 40% da produção global de crude, alegam que o acordo da COP 28 é motivado por campanha política e causa uma pressão desproporcionada aos países produtores de petróleo.

Apesar disso, de acordo com a World Benchmarking Alliance, os lucros destes países superam os 300 biliões e teriam que investir cerca do dobro até 2030 para implementar soluções de energia limpas.

Dos países que assinaram o acordo, apenas 3 mostram ter já um plano de acção para o phase-out, são eles a Dinamarca, Espanha e França, os 3 considerados pequenos produtores.

O plano dinamarquês foi criado após um acordo parlamentar em 2020 e contempla reduzir em 9 a 15% a extração de crude no mar do norte e assim reduzir a receita consequente em 12 milhões de euros, como aponta um relatório do Oxford Institute for Energy Studies. Sendo uma medida concreta, é apenas um pequeno passo.

O acordo selado no Dubai em dezembro do ano passado, durante a COP 28, para gradualmente largar a produção de combustíveis fosseis, parece ser apenas uma formalidade.

Há ainda que considerar um aspeto menos falado que é a perceção nomeadamente relativa aos empregos derivados. A indústria petrolífera e gás natural empregava em 2019, cerca de 12 milhões de pessoas. De acordo com a IEA, o sector das energias renováveis irá criar 14 milhões de empregos até 2030, e conseguirá transitar 16 milhões de trabalhadores da indústria fóssil para a renovável.

No entanto como constata um estudo feito na Noruega em 2023 e publicado na revista científica Taylor & Francis Online, os partidos políticos que são pró-oil continuam a ganhar votos nos locais onde o desemprego resultante da redução petrolífera é maior, o que indica que a mensagem sobre os empregos das energias renováveis ainda não é eficaz.

Se o petróleo fosse parado agora nos EUA, a reserva atual de 370 milhões de barris daria apenas para 17 dias.

Esta é uma altura crucial para a redução do petróleo. A Universidade de Manchester produziu um estudo em 2022 que apontava já para uma meta máxima de 12 anos, para cumprir o phase-out por parte dos países com mais emissões de C0².

Em suma, embora seja necessário largar o petróleo de forma urgente, não parece que isso vá acontecer tão rápido quanto desejável. Os fatores são em grande parte económicos e políticos.

Para se ter uma ideia desta dificuldade, se o petróleo fosse parado agora nos EUA, a reserva atual de 370 milhões de barris daria apenas para 17 dias.

Por outro lado, ainda não há alternativa implementada, ou seja, as infraestruturas de energia renovável não conseguem atingir a produção e acesso global de modo a substituir o petróleo de forma célere.