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Francisco tem sido apontado como um dos papas mais comprometidos com as questões ecológicas na história da Igreja. Declarou que destruir o ambiente é um pecado, alertou que a humanidade está a transformar a criação de Deus numa “terra devastada e poluída” e associou a crise ambiental a uma “sede egoísta e ilimitada de poder” da humanidade.
Ao longo dos anos, reuniu-se com chefes de Estado e de grandes empresas para discutir a crise ambiental. Promoveu no Vaticano uma conferência dedicada à resiliência climática, mobilizando a Igreja Católica em torno do tema. E, há precisamente 10 anos, publicou aquele que é ainda hoje um dos seus contributos mais reconhecidos nesta área: a encíclica Laudato si’, o primeiro documento de ensino papal inteiramente dedicado à ecologia.
“Nunca maltratámos e ferimos a nossa casa comum como nos últimos dois séculos”, escreveu na carta oficial dirigida aos católicos, divulgada poucos meses antes da conferência do clima de Paris, que resultaria no primeiro acordo climático universal.
Papa Francisco a plantar uma árvore no Bangladesh, em 2017. Sumo pontífice promoveu ecologia e apelou à proteção da “casa comum” em todas as regiões do mundo. (foto: Vatican News)
“A Laudato si’, tendo sido publicada em maio de 2015, antecedeu a COP21 de Paris. Antecipou e deu um impulso moral crucial a essas negociações do acordo climático global”, explica ao Green eFact o padre José Frazão Correia, antigo superior dos jesuítas em Portugal.
O teólogo e atual diretor da revista Brotéria recorda que outros Papas – como Paulo VI, João Paulo II ou Bento XVI – já tinham abordado “preocupações ecológicas” e a “necessidade de respeitar a criação”. Francisco inovou ao atribuir urgência e protagonismo a essas questões.
“A novidade do Papa Francisco foi sintetizar e recolher todas essas preocupações que vinham sendo manifestadas e dar-lhes uma urgência e uma centralidade sem precedentes”, explica.
Apresentação da exortação apostólica Laudate Deum nos jardins do Vaticano, em 2023. Publicada oito anos após a Laudato si’, esta nova carta papal reforçou a urgência climática e renovou o apelo do Papa à responsabilidade ecológica. (foto: Vatican News)
Questionado sobre a motivação de Francisco e a relação entre fé e ambiente, o padre José Frazão Correia destaca o conceito de ecologia integral, promovido pelo Papa. Trata-se de uma visão que reconhece e valoriza a interligação entre todos os seres vivos e os sistemas sociais, culturais e económicos em que vivem. Por isso, explica, a Laudato si’ não foi apenas uma encíclica verde, mas também uma encíclica social, enquadrada na missão da Igreja.
“Eu acho que a força dele é precisamente essa: recordar que a experiência crente, neste caso dos cristãos, não pode ser tão desencarnada que não tenha em conta, por um lado, a humanidade que partilhamos (…) e, ao mesmo tempo, a preocupação com a casa que habitamos”, justifica.
Uma das figuras centrais que inspiraram esta visão do Papa foi Francisco de Assis, padroeiro da ecologia. Segundo o padre José Frazão Correia, foi um exemplo espiritual de simplicidade, sobriedade e fraternidade universal, incluindo com a natureza.
Francisco de Assis, padroeiro da ecologia, foi uma inspiração central para o Papa, pela sua visão espiritual de simplicidade e comunhão com todas as formas de vida. (foto: Cigoli – Web Gallery of Art)
A expressão Laudato si’ – “Louvado sejas”, em italiano medieval – é, aliás, retirada de um cântico de Francisco de Assis, em que louvava Deus pelas criaturas da Terra – o sol, a água, o fogo ou a própria morte – reconhecendo nelas irmãos e irmãs.
“Chama irmão a todas as coisas: à água, ao sol, ao fogo, aos animais, às plantas”, descreve o padre José Frazão Correia. “Francisco de Assis tem quase mil anos. É extraordinário como é que alguém que está tão longe no tempo tem uma força, uma atualidade tão grande no presente.”
Para o teólogo, as preocupações ambientais interessam à Igreja não só por causa desta ideia de ecologia integral, mas também pelo impacto direto que a crise climática tem nas “comunidades cristãs espalhadas por todo o mundo”, em especial nas comunidades pobres, que “pagam a fatura maior de toda a crise ecológica”.
“Nesse sentido, sim, creio que a Igreja – representando um número significativo de pessoas e de comunidades espalhadas pelos quatro cantos do mundo – tem um papel muito relevante nesta matéria. Diria isso sem grande hesitação.”
Irmãs religiosas apresentam um projeto agrícola ecológico na Zâmbia. Exemplos como este são apontados pelo Vaticano como expressão prática do apelo do Papa Francisco à ecologia integral. (foto: Vatican News)
O impacto da ação ambiental de Francisco refletiu-se na sociedade civil. Um exemplo é o Movimento Laudato Si’, fundado em 2015, que reúne organizações e fiéis católicos comprometidos com a ecologia integral. O movimento é de alcance internacional e tem expressão também em Portugal, promovendo ações de sustentabilidade, formação de animadores locais e campanhas globais de sensibilização.
No contexto português, o antigo líder dos jesuítas em Portugal destaca ainda o projeto Casa Velha – Ecologia e Espiritualidade, em Ourém. Trata-se de um espaço onde se vive um compromisso ecológico com dimensão espiritual, através do cuidado da terra, da proximidade com as comunidades e da valorização de práticas sustentáveis. “É um projeto concreto que veio dar corpo a esta preocupação ecológica do Papa Francisco, sobretudo como uma preocupação humana, ética, moral e espiritual.”
Apesar deste dinamismo, o teólogo reconhece que há uma resposta desigual entre os crentes, refletindo as próprias tensões da sociedade em geral, dando como exemplo não só o simples desinteresse de alguns como o envolvimento ativo em movimentos negacionistas de outros. Por outro lado, destaca o “alcance ecuménico” da causa ambiental: “É um tema que tem a força e a capacidade de juntar em ações comuns crentes de várias religiões. E também não crentes.”
Mensagem ecológica de Francisco consolidou um novo papel da Igreja no debate ambiental, influenciando fiéis, líderes políticos e movimentos sociais em todo o mundo. (foto: franciscus/Instagram)
Quanto ao futuro, o padre José Frazão Correia acredita que a ecologia integral vai continuar a ser um tema central para a Igreja. Mesmo reconhecendo diferentes sensibilidades internas, considera que essa preocupação está hoje suficientemente consolidada para que nenhum sucessor de Francisco a ignore.
“Parece-me que o tema ganhou uma tal relevância e consistência que é difícil que qualquer um dos candidatos a Papa desvalorize esta questão. Pelo contrário, creio que cada um deles a porá, à partida como centro da agenda.”
Entre os cardeais apontados como possíveis sucessores de Francisco incluem-se figuras que têm abordado a temática ambiental de forma consistente, como Peter Turkson, Luis Antonio Tagle, Matteo Zuppi ou Fridolin Ambongo Besungu.