voltar

Sara Pinho

Quais as proteínas com mais microplásticos?

28 Feb 2024 - 10:00
Não há maneira de nos escondermos dos microplásticos na nossa alimentação. Esta afirmação é corroborada por um novo estudo, publicado há poucas semanas na revista Environmental Pollution, que encontrou microplásticos em quase 90% das amostras testadas de diferentes tipos de proteínas.

Os microplásticos são partículas muito pequenas de plástico. Têm uma dimensão inferior a cinco milímetros, mais pequena do que um grão de arroz e são utilizados em produtos de plástico – como garrafas de água, brinquedos, tupperwares, cadeiras ou embalagens que encontramos no supermercado –, tintas ou fertilizantes e são também adicionados a produtos de cosmética. Fáceis de moldar sem se partir, estas partículas são caracterizadas pela sua dureza, durabilidade e resistência ao clima.

Neste estudo, recentemente publicado, os investigadores analisaram a contaminação por microplásticos em 16 alimentos proteicos que estão na base da alimentação dos EUA. Entre eles, frutos do mar, carne de porco, carne de vaca, frango, tofu e outros alimentos de origem vegetal.

Estimou-se então que, em média, um adulto ingere pelo menos 11 mil partículas destas por ano nos EUA. O alimento que mais contém microplásticos, por porção, é o camarão panado, contrastando com o peito de frango, a costeleta de lombo de porco e o tofu, que são os alimentos com menor presença de microplásticos.

Os microplásticos têm uma dimensão inferior a cinco milímetros e são utilizados nos mais diversos produtos de plástico.

Ao camarão panado seguem-se os nuggets de origem vegetal e de frango, os douradinhos (de origem animal e vegetal), o camarão branco e as gambas.

A nova pesquisa realça também a provável presença de pequenos pedaços de plástico em filetes de peixe, no frango, na carne de vaca e na carne de porco (a qual se junta à já conhecida presença de microplásticos em diferentes espécies de peixe e marisco) e faz soar de novo os alarmes relativamente ao consumo de alimentos altamente processados, nos quais os investigadores encontraram mais microplásticos por grama.

Segundo o estudo feito pela organização Ocean Conservacy e pela Universidade de Toronto, o alimento que mais contém microplásticos, por porção, é o camarão panado.

De acordo com a Agência Portuguesa do Ambiente, os resíduos de plástico já representam cerca de 60 a 90% do lixo marinho, dependendo do sítio onde se encontram.

Além de serem uma ameaça crescente para a vida marinha, porque a poluição no mar tem vindo a aumentar, há uma evidência cada vez maior de que os microplásticos ingeridos por animais marinhos entram na cadeia alimentar, sendo consumidos, em última instância, por nós.

Apesar de ser consensual que pouco se sabe sobre a toxicidade destas partículas – e este estudo vem confirmá-lo, concluindo que ainda não foi possível determinar os efeitos do consumo direto dos microplásticos na nossa saúde –, sabe-se que elas podem interferir com o sistema endócrino, o qual é responsável por regular as nossas hormonas.

De acordo com a Agência Portuguesa do Ambiente, os resíduos de plástico já representam cerca de 60 a 90% do lixo marinho.

Em grande escala, estas partículas já foram encontradas nas profundezas do oceano, mas também no ponto mais alto do planeta, em amostras de neve no cume do Monte Evereste. Em menor escala, detetou-se a presença de microplásticos em pulmões humanos, na corrente sanguínea humana e em fezes humanas.

O estudo refere ainda que é fundamental haver uma investigação mais abrangente sobre a presença de microplásticos nas proteínas animais e nas de origem vegetal que ingerimos, seja a nível geográfico ou ao nível dos próprios alimentos, para melhor distinguir como a contaminação pode variar globalmente e que fatores estão em causa.

É, por isso, urgente repensar na forma como consumimos plástico e reduzir esse consumo sempre que possível. Além disso, investir no tratamento e na reciclagem destes materiais pode ajudar a mitigar os seus impactos na vida marinha e, consequentemente, na nossa alimentação.