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Miguel Judas

Portugal vai ser demasiado quente para o turismo?

19 Sep 2023 - 08:51

Descodificador

Com a Europa a bater todos os recordes de temperatura, o calor extremo vai tornar-se cada vez mais comum e pode levar a uma diminuição de turistas nos países do Sul na ordem dos 10%

Se nada for feito para inverter a situação e tudo continuar como até agora, até 2100 o número de turistas nos países do sul da Europa, Portugal incluído, vai diminuir 10%. Esta é uma das principais conclusões de um relatório do Centro de Investigação Conjunta da Comissão Europeia, recentemente divulgado, no qual se deduz que “com um aquecimento de três ou quatro graus e emissões elevadas de gases com efeito de estufa”, os turistas vão simplesmente “fugir dos países costeiros do sul da Europa no verão” em direção a destinos mais a norte, mais suportáveis.

De acordo com os investigadores, será em países como Grécia, Chipre, Espanha, Itália e Portugal que se irão verificar as maiores perdas, com reduções acima dos 5%. Em contrapartida, países como Alemanha, Dinamarca, Finlândia, França, Irlanda, Países Baixos, Suécia e Reino Unido terão um crescimento da procura turística da mesma ordem, o que mesmo assim representaria, no quadro geral europeu e sempre num cenário de emissões elevadas, um aumento estimado de 1,58% do número de turistas no continente.

Evolução projetada da procura turística na Europa por regiões para os diversos cenários de aquecimento global, comparada, em termos percentuais, com a realidade pré-pandemia, em 2019. Como se percebe pelas imagens, quanto maior for o aumento da temperatura, maiores serão as perdas para Portugal

Pelo contrário, num cenário de emissões reduzidas, em que o aquecimento poderá ficar limitado a um aumento de 1,5 graus Celsius, tal como previsto no Acordo de Paris de 2015, as alterações das atuais dinâmicas turísticas na Europa serão praticamente nulas.

Já no final do ano passado, o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, que trabalha no âmbito da ONU), no seu 6.º relatório de avaliação, alertava para as consequências da subida da temperatura em cada região do planeta e de que forma as diferentes atividades económicas poderão ser atingidas.

Entre as principais alterações que atingirão o continente europeu, incluem-se o aumento das temperaturas em todas as regiões europeias a uma taxa mais elevada do que temperatura média global, o crescimento em frequência e intensidade de extremos quentes, a diminuição da frequência de períodos de frio, alterações no padrão de distribuição de precipitação durante o inverno (com aumento no norte da Europa e decréscimo no Mediterrâneo) e subida do nível médio das águas do mar em todas as regiões litorais europeias, à exceção do mar Báltico.

O relatório refere ainda que nos países do Sul da Europa já há algum tempo se sentem as consequências desta realidade, materializadas em longos períodos de seca e na ocorrência cada vez mais comum de grandes incêndios.

A ONU alertou para as consequências da subida da temperatura em cada região do planeta

A nível do turismo, esta organização identificou ainda diversos “fatores de impacto climático”, nomeadamente condições meteorológicas e climatéricas extremas, que podem alterar por completo a realidade tal como a conhecemos em países muito dependentes do segmento de sol e praia, como é o caso do sul da Europa e mais em concreto Portugal, pelo modo como podem desencadear desastres naturais e tornar estes destinos menos atrativos.

Convém não esquecer que o continente Europeu tem estado a aquecer duas vezes mais do que a média global desde a década de 1980, conforme foi mencionado noutro relatório, publicado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) da ONU e pela rede europeia Copernicus.

De acordo com os dados destas organizações, só desde 2010 já foram 18 os países europeus a bater os seus recordes de temperatura mais elevada.