O projeto CavALMAR, uma parceria entre a Câmara Municipal de Almada e o MARE- Centro de Ciências do Mar e do Ambiente do Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida, desenvolveu um profundo estudo da biodiversidade ao longo da costa ribeirinha do conselho de Almada, em particular sobre as populações de cavalo-marinho que habitam nesta zona. Foram visitados 13 locais, ao longo de 10 km desde a Cova do Vapor até Alfeite, nove dos quais apresentavam populações de cavalos-marinhos e marinhas.
Este foi o primeiro estudo das comunidades de singnatídeos no concelho de Almada, bem como o primeiro levantamento da biodiversidade marinha ao longo de toda a frente ribeirinha, realizado entre 2022 e 2023, no qual foi feito um levantamento e monitorização ecológica.
Foram observados 29 cavalos-marinhos-de-focinho-comprido (Hippocampus guttulatus), 7 cavalos-marinhos-comuns (Hippocampus hippocampus) e 6 marinhas da espécie Syngnathus acus, especialmente na baía da Trafaria, onde ainda em 2019 foi identificado um importante núcleo populacional destas espécies, entretanto ameaçadas pela derrocada dos cais e pontões flutuantes.
Ao longo de 10 km desde a Cova do Vapor até Alfeite, nove apresentavam populações de cavalos-marinhos.(Foto: Mário Rolim)
“Estes valores são elevados para estas espécies, tratando-se de espécies raras, difíceis de detetar, com pouca mobilidade, e que ocorrem pontualmente em áreas muito restritas”, referiu o coordenador do projeto, Gonçalo Silva, professor auxiliar convidado na Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciência e Tecnologia, investigador no MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente e na MARDIVE – Associação Ciência e Educação para a Conservação da Biodiversidade Marinha.
Outra surpresa, esta desagradável e preocupante, foi o estado dos habitats destes animais – áreas degradadas com todo o tipo de lixo, especialmente redes de pesca, covos, fios de nylon, esferovite, anzóis, chumbadas, estruturas de ganchorra, cabos, pneus, garrafas de plástico, baldes, latas, luvas, máscaras, sacos de plástico e até carrinhos de supermercado… Além de uma montanha de cascas de ostras.
“Para além de todo este lixo, as populações de cavalos-marinhos na margem sul ainda estão sujeitas a outras ameaças como a pesca ilegal, a poluição, o ruído subaquático e a destruição do habitat”, alertou o investigador, lembrando que existe o decreto-lei nº38/2021 que aprova o regime jurídico aplicável à proteção e à conservação de algumas espécies vulneráveis, entre as quais os cavalos-marinhos.
Outra surpresa, desagradável e preocupante, foi o estado dos habitats destes animais, degradados com todo o tipo de lixo. (Foto: Gonçalo Silva)
No entanto, as áreas marinhas protegidas apenas cobrem cerca de 20% do habitat estimado dos cavalos-marinhos em Portugal e ainda assim conferem baixos a moderados níveis de proteção.
Na última década, a abundância de cavalos-marinhos sofreu uma redução na ordem dos 90% na Ria Formosa, devido a pressões antropogénicas, apesar do estatuto de conservação classificado como “dados insuficientes” na lista vermelha da IUCN – International Union for Conservation of Nature’s Red List of Threatned Species.
“Na verdade, os cavalos-marinhos constituem per se uma oportunidade não apenas para promover a reabilitação ambiental, mas também a urbana e social. É através de espécies-bandeira como os cavalos-marinhos que podemos criar e fortalecer laços de afetividade entre pessoas e o meio aquático, motivando-as a preservarem-no”, afirmou Gonçalo Silva.
Na última década, a abundância de cavalos-marinhos sofreu uma redução na ordem dos 90%, devido a pressões antropogénicas. (Foto: Gonçalo Silva)
Entretanto em Março de 2022, um dos pontões flutuantes da baía da Trafaria colapsou, o que levou a uma intervenção de urgência para a remoção dos singnatídeos que ocorriam naquela zona.
A intervenção foi liderada pelo Instituto para a Conservação da Natureza e das Florestas-ICNF, em colaboração com o MARE-Ispa (responsável pelas operações de mergulho) e com o Oceanário de Lisboa (responsável pelo transporte e manutenção dos organismos em cativeiro, até à sua translocação de volta à natureza).
Os resultados obtidos não apenas no âmbito do projeto CavALMar, mas também de outros trabalhos em paralelo, servem agora de suporte a uma série de recomendações, que deverão ser implementadas para a conservação dos singnatídeos na frente ribeirinha de Almada:
– Monitorização científica, constante e contínua no tempo.
– Definição de áreas apropriadas para o restauro de habitat e promoção da conectividade.
– Ações de limpeza de lixo marinho.
– Implementação de um programa de interação com as comunidades locais.
– Criação de um comité de co-gestão para a biodiversidade marinha.
– Implementação de programas educativos.
– Definição de uma proposta de intervenção na Trafaria.
– Criação de uma área de “santuário” ou de conservação e compatibilização de usos.
– Criação de um centro de interpretação e de recuperação do cavalo-marinho na Trafaria.
Os resultados do estudo serviram de suporte a uma série de recomendações, que deverão ser implementadas para a conservação dos singnatídeos na frente ribeirinha de Almada. (Foto: Mário Rolim)
O investigadores do projeto CavALMar continuam a trabalhar com a Câmara Municipal de Almada para tentar encontrar soluções para implementar as medidas propostas no relatório do projeto, sobretudo em função dos desenvolvimentos relativos à construção do porto de pesca da Trafaria.
“Este é um problema complexo, pois diferentes entidades têm responsabilidade nesta área, para além do Instituo da Conservação da Natureza e das Florestas – ICNF que tem a responsabilidade de proteger estas espécies”, finaliza o investigador Gonçalo Silva.