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Pureza Fleming

Os benefícios ambientais (e pessoais) de não fazer nada

20 Feb 2024 - 10:00
O projeto-piloto em torno da semana de trabalho de quatro dias começou a ser preparado em 2022 e a ideia ganhou atenção em vários lugares ao redor do mundo, incluindo Portugal, onde já começou a ser testada. Tal não é por acaso, pois a transição para uma semana de trabalho mais curta tem sido associada a vários benefícios potenciais, tanto para os trabalhadores como para as empresas. A cereja no topo do bolo é saber-se que, por tabela, também o planeta fica a ganhar.

O fim-de-semana moderno é uma invenção relativamente recente. Estabelecido na década de 1930, tratou-se de um armistício entre os sindicatos que lutavam por mais tempo livre e os empregadores, que acabaram por reconhecer que consagrar um descanso de dois dias era melhor do que suportar o absenteísmo em massa durante a “Segunda-feira Santa”, o feriado não oficial dos trabalhadores após os excessos do domingo.

Contudo esta necessidade humana por uma pausa semanal remonta a pelo menos 2.600 anos. O conceito surge no cristianismo e no islamismo, ambos reservando dias semanais para rituais, assim como nos dias uposatha do budismo e no roku sainichi do Japão, entre outros.

A primeira referência ao descanso obrigatório aparece, porém, na Torá, onde os antigos israelitas foram ordenados a cessar o seu trabalho da noite de sexta-feira até o pôr do sol de sábado, um período conhecido como Shabbat no calendário judaico.

Como escreveu Abraham Joshua Heschel no seu clássico de 1951, Schabat: O Seu Significado para o Homem Moderno, ”o sábado é a grande catedral do judaísmo, um templo construído no tempo. A civilização técnica é o produto do trabalho, do esforço do homem para o ganho, para a produção de bens, (…) sábado é o dia em que aprendemos a arte de superar a civilização”.

O movimento Green Sabbath pretende impulsionar um dia semanal de descanso com impacto ambiental.

O Papa Francisco argumentou algo semelhante sobre o domingo do cristianismo na sua encíclica  Laudato Si’, de 2015, sobre o cuidado com o mundo natural. Não descansar não é apenas prejudicial para a alma, mas também para a Terra. O constante impulso para produzir e consumir está a desperdiçar recursos naturais e impede-nos de tratar o mundo vivo e uns aos outros com dignidade e respeito. O dia de descanso força-nos a considerar como gastamos todos os nossos dias.

Em 2019, também o artista, ativista ambiental e professor de religião judaica americano Jonathan Schorsch lançou o Green Sabbath, um projeto que surgiu com a missão de impulsionar um movimento em massa para a observância de um dia semanal de descanso, no qual o impacto no meio ambiente pudesse ser minimizado ao máximo.

Embora inspirado por fontes religiosas antigas, o “sabbath verde” é uma prática ritual conscientemente reformulada com o intuito de abordar realidades atuais. Ao ser adotado por indivíduos e comunidades, pode ou não estar vinculado a uma religião organizada ou a Deus.

Não se tratará propriamente de um dia de spa, mas uma versão moderna do que os antigos praticavam: evitar o trabalho em fábricas e escritórios, ou mesmo defronte de computadores; optar por não conduzir automóveis, andar de avião, ou usar motores de qualquer tipo durante o dia; adiar compras; preparar comida com antecedência; e cessar a sempre incessante atividade das sociedades modernas.

Segundo o Papa Francisco, o constante impulso para produzir e consumir está a desperdiçar recursos naturais e impede-nos de tratar o mundo vivo e uns aos outros com dignidade e respeito.

O efeito imediato entre milhões de pessoas, calcula Schorsch, poderia reduzir bastante as emissões pelo menos um dia por semana, sem necessidade de novas tecnologias ou mais despesas.

“No final, como sociedade, vamos precisar ter práticas ecológicas”, avançou Schorsch ao The Washigton Post. “Não basta impor leis. Resolvemos [as mudanças climáticas] por meio de soluções tecnocráticas e políticas, ou resolvemos por meio de abordagens culturais, até mesmo espirituais? Um sem o outro não será suficiente.”.

Desde há muito que são conhecidos os beneficios resultantes da prática de “não fazer nada”, tanto a nível ambiental como pessoal.

A nível político são também já notórios os esforços nesse sentido, como está a acontecer em diversos estados da União Europeia, onde já está a ser testada a semana de trabalho de quatro dias, Portugal incluído.

Afinal, desde há muito que conhecidos vários beneficios resultantes da prática de “não fazer nada”, tanto a nível ambiental (Redução nas Emissões de Carbono, conservação de recursos naturais ou diminuição da pegada ecológica) como pessoal (redução do stress e da ansiedade, melhoria da saúde física, fortalecimento de relacionamentos, estímulo à criatividade e reflexão, melhoria na qualidade do sono e especialmente um maior equilíbrio na sempre complicada equação que opõe o trabalho à vida pessoal).