Entre os dez peixes mais pescados no mundo, o bacalhau é o mais problemático. Cerca de 78% dos stocks de bacalhau do Atlântico (Gadus morhua) estão em situação de sobrepesca. Esta é uma das situações mais alarmantes reveladas no relatório da FAO sobre o estado dos recursos pesqueiros marinhos mundiais, divulgado ontem em Nice, no âmbito da Conferência dos Oceanos da ONU.
O bacalhau já foi um dos reis das pescas a nível mundial. Depois de uma queda brutal nas capturas a partir dos anos 1970, a pesca nas águas do Canadá foi suspensa em 1992. Há dois anos, em 2023, foi retomada, em pequena escala. Mas, segundo o relatório da FAO, “a recuperação dos stocks permanece incerta”.
Quase todo o bacalhau consumido hoje no mundo (97%) é pescado nos mares do Norte, da Noruega e de Barrents – maioritariamente em stocks insustentáveis.
Portugal importou 94 mil toneladas de bacalhau em 2024 – quase um quinto de todas as importações de pescado do país, segundo dados do Instituto Nacional de Estatísica.
Quase todo o bacalhau consumido hoje no mundo (97%) é pescado nos mares do Norte, da Noruega e de Barrents.
A sardinha europeia (Sardina pilchardus), a nível mundial, também é um dos peixes que inspiram preocupação. Dos 18 stocks de sardinhas avaliados pelo relatório da FAO, oito estão em sobrepesca (44%). A pesca caiu substancialmente na costa atlântica europeia a partir dos anos 1970 e no Mediterrâneo mais recentemente, segundo os números da FAO.
Hoje, quatro em cada cinco sardinhas que chegam à mesa a nível global são capturadas em águas da costa africana, especialmente ao largo do Marrocos e Mauritânia. Em Portugal, a quase 40% das sardinhas consumidas no país foram importadas em 2024, segundo o INE. Ou seja, em cada em cada cinco sardinhas, duas vieram de fora.
Hoje, quatro em cada cinco sardinhas que chegam à mesa a nível global são capturadas em águas da costa africana, especialmente ao largo do Marrocos e Mauritânia.
O relatório da FAO traz notícias boas e más. Cerca de dois terços dos stocks de peixes no mundo são explorados dentro de níveis biológicos sustentáveis. Isto significa que a pesca não compromete a reposição das populações. Um terço (35%) dos stocks estão sobreexplorados. Esta percentagem tem vindo a subir subido – cerca de 1% ano, diz a FAO.
Mas a situação varia conforme a região. No Pacífico Nordeste – onde, segundo a FAO, há medidas eficazes de gestão da pesca – 93% dos stocks são explorados de modo sustentável. “A gestão efetiva permanece como uma das ferramentas mais poderosas para a conservação dos recursos pesqueiros”, afirma o diretor-geral da FAO, QU Dongyu, num comunicado.
A pesca sustentável é um dos muitos temas sobre a mesa da Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos, que decorre até sexta-feira em Nice. Um dos objetivos da conferência é dar um impulso à entrada em vigor do Tratado do Alto Mar, adotado pela ONU em 2023, para proteger e explorar sustentavelmente – incluindo através da pesca – a biodiversidade além das zonas económicas exclusivas.
O tratado precisa de 60 ratificações para entrar em vigor. Neste momento, há 50, sendo que 19 foram anunciadas durante a conferência.