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Rafael Nabais

Green Ethics: o grande jogo do ambiente

27 May 2025 - 09:00

Descodificador

Participar, pensar, pedalar e plantar são as palavras-chave do Green Ethics um projeto de teatro social e comunitário, criado em 2021 e desenvolvido no âmbito do programa Europa Criativa, com o objetivo de alertar para as alterações climáticas, através das artes. Em Portugal a ASTA, da Covilhã apresenta uma performance centrada no conhecido Jogo da Glória, com bicicletas geradoras da energia que sustentam o dispositivo do espetáculo. Depois de ter passado por vários locais e escolas joga-se agora em Montemor-o-Novo.

É através das artes performativas que o projeto Green Ethics – Experience Through Theatre Inspiring Communities pretende sensibilizar e consciencializar as pessoas para a questão das alterações climáticas de uma forma mais interativa. O projeto envolve 12 países europeus (Itália, Espanha, Grécia, Portugal, Holanda, Alemanha, Suécia, Hungria, Polónia, Letónia, Bulgária e Sérvia), conta com apresentações em 120 cidades e foi impulsionado pela Universidade de Torino e pelo SCT Centre (Social Community Theatre Centre), em Itália, com a colaboração de mais de 18 parceiros europeus.

Trata-se de um espetáculo interativo, com diferentes versões, desenvolvidas nos diferentes países, e tem duas particularidades: o jogo, que varia entre o online e o tabuleiro (como é o caso de Portugal) e a presença de bicicletas que geram energia para a cena, consoante a pedalada dos espectadores.

“A arte congrega em si mesma a possibilidade de tocar as pessoas, de alcançar e criar emoções, sentimentos, empatia”, afirmou ao Green eFact Sérgio Novo, o diretor do grupo de teatro ASTA, da Covilhã, que concebeu uma performance em que o público é dividido em duas equipas e “o fio condutor, neste caso o argumento do espetáculo, funciona como o Jogo da Glória”, no qual “cada casa tem uma pergunta sobre temáticas ambientais”. No final do jogo, os pontos amealhados por ambas as equipas fazem são transformados em sementes que irão fazer germinar árvores.

O espetáculo Green Ethics funciona como o Jogo da Glória, no qual “cada casa tem uma pergunta sobre temáticas ambientais”. No final do jogo, os pontos amealhados por ambas as equipas fazem são transformados em sementes que irão fazer germinar árvores.

Como sublinha o diretor da companhia beirã, é “fundamental replantá-las”, tendo em conta que, só nesta região, a Serra da Estrela tem sido vitíma de muitos incêndios. “Cada ponto será convertido numa árvore.  E o somatório dos pontos será o número de árvores a plantar. Ou seja, mesmo que uma das equipas não tenha ganho o jogo, sempre contribui, com os pontos que ganhou, para a reflorestação da zona” e, nesse sentido, “todos ganhamos”, adianta.

E enquanto o jogo da Glória convida a refletir sobre a crise climática, as bicicletas em cena apelam ao público a agir pelo ambiente, dando ao pedal em boas práticas que, individualmente, podem contribuir para a sustentabilidade.

O Green Ethics envolveu ainda a criação de um “protocolo verde” na área da cultura, como faz notar Sérgio Novo, com uma série de guias partilhados por todos os parceiros do projeto, para o desenvolvimento de eventos culturais sustentáveis. “Isso é essencial porque às vezes são pequenas medidas, que todos nós podemos pôr em prática, que contribuem para a mitigação das alterações climáticas”.

As bicicletas em cena apelam ao público a agir pelo ambiente, dando ao pedal em boas práticas que, individualmente, podem contribuir para a sustentabilidade.

A performance Green Ethics já foi apresentada pelo ASTA em várias escolas, desde 2024. A professora do agrupamento de escolas do Teixoso e coordenadora do Plano Nacional das Artes, Graça Morão, sublinha que “qualquer projeto fora da caixa é sempre uma mais-valia”, especialmente “por serem matérias dadas em várias disciplinas, em contexto de sala de aula”, mas neste caso apresentadas de outra forma, eventualmente mais apelativa.

“Só nas escolas deste agrupamento foram 112 os alunos envolvidos. E todos estavam entusiasmadíssimos porque, além de poderem pedalar, conseguem pôr em prática tudo aquilo que sabem, pois o espetáculo funciona como um concurso entre equipas”. Ou seja, além do estímulo e da competitividade, decorrente da própria lógica do jogo, também se aprende: “São conhecimentos que assim ficam, de facto, consolidados, porque aprendem melhor de uma maneira mais lúdica”.

Seja em contexto escolar ou familiar, o projeto tem recebido um feedback muito positivo, como observa Marcelo Coppi, investigador do Centro de investigação em Educação e Psicologia da Universidade de Évora, também parceiro do projeto. “Tem havido grande recetividade em relação ao que estas performances envolvem e como podem contribuir para as pessoas modificarem um pouco as suas atitudes em relação às questões do ambiente”.

E acrescenta: “cada país tem o seu foco e as suas prioridades, sendo portanto difícil falar de um impacto no geral, porque este varia de país para país, mas certamente que houve um efeito”. O investigador adianta, de resto, que a ideia de recorrer a um lado mais lúdico, através do jogo, na criação das performances foi interessante “para atrair várias faixas etárias “e por outro lado, “alinhar as práticas teatrais com a questão científica e a sustentabilidade”.

No XVII Festival Internacional de Marionetas de Montemor-o-Novo, organizado pela companhia Alma d’Arame, na escola S. João de deus, A ASTA vai hoje de novo a jogo com Green Ethics, um inovador formato de teatro interactivo e a pedal. E podemos esperar mais sessões desta performance no próximo ano letivo, desta vez envolvendo também alunos do 3º ciclo.