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Os veículos elétricos e o funcionamento da rede elétrica têm sido recorrentemente alvos de desinformação online. São ambos associados à política climática ou, por outras palavras, à “Agenda Verde”, numa tentativa de criar um clima de inação ou medo perante a transição energética.
Este é um padrão que se tem verificado nos últimos meses e que foi confirmado pelo Green eFact, através de uma ferramenta que permite detetar narrativas falsas e descontextualizadas a circular nas redes sociais e as respetivas alegações que estão na sua base.
No âmbito do projeto Prebunking at Scale, de abril à primeira metade de junho deste ano, monitorizámos esse conteúdo a fim de encontrar as narrativas que mais se repetem e aquelas que têm vindo a evoluir, no que toca ao seu alcance.
Uma em particular regista uma atividade considerável: “a Agenda Verde esconde a poluição causada pelos veículos elétricos”
Como não existe combustão interna para gerar energia, os carros elétricos não produzem gases ou partículas prejudiciais à saúde e ao meio ambiente.
Qual o impacto climático dos veículos elétricos?
Para andarem, os veículos elétricos precisam da eletricidade que vem da rede elétrica e que fica armazenada nas baterias. Como não existe combustão interna para gerar essa energia – ao contrário do que acontece com os carros a gasóleo ou gasolina – não há produção de gases ou partículas prejudiciais à saúde e ao meio ambiente.
Contudo, para se perceber o real impacto ambiental dos veículos elétricos, não importa apenas a energia que os move; existem outros fatores que contribuem para a poluição ou impacto climático associado a este tipo de veículos.
Na fase de produção, existe extração e processamento de materiais, assim como o respetivo transporte, de fábrica em fábrica, para serem transformados em peças.
“Os impactos são muito variáveis em função daquilo que é a origem das matérias-primas. São processos industriais utilizados para refinar essas matérias-primas que são necessárias para a sua montagem, mas são também os processos de fabrico desses componentes”, exemplifica Acácio Pires, analista de políticas climáticas na Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável.
Agência Internacional de Energia (AIE) estimou que os carros elétricos precisam de 173 kg de minerais a mais do que os carros a gasolina ou gasóleo.
Se tivermos em conta as emissões de CO2 e as quantidades de energia necessárias para extrair metais raros, como o lítio e o níquel, por exemplo, para a produção de um veículo elétrico, esta irá ter um impacto climático muito maior do que a produção de um veículo convencional, de acordo com um relatório da Agência Europeia do Ambiente.
Também a Agência Internacional de Energia (AIE) estimou que os carros elétricos precisam de 173 kg de minerais a mais do que os carros a gasolina ou gasóleo. Entre eles, estão o cobre, o lítio, o níquel, o manganês, o cobalto e o grafite.
Há ainda outras emissões associadas às partículas que são libertadas pelo sistema de travagem e pneus dos veículos elétricos.
Ainda assim, um carro elétrico não só continua a ter menos emissões no seu ciclo de vida que um carro a combustão – tendo também menos impacto na poluição a nível local – como tem uma eficiência energética maior.
Um carro elétrico não só continua a ter menos emissões no seu ciclo de vida que um carro a combustão, como tem uma eficiência energética maior..
É o que mostra a ICCT – The international Council on Clean Transportation – que realizou um estudo onde compara as emissões totais dos veículos a combustão comparadas com as dos elétricos e a hidrogénio, durante os ciclos de vida destas tecnologias.
Este grupo de investigação independente sem fins lucrativos e que defende uma política de transportes com menos emissões de gases com efeito de estufa, concluiu que os veículos elétricos e a hidrogénio têm uma clara vantagem face aos veículos com motores de combustão, no que respeita ao impacto ambiental.
As conclusões da ICCT mostram, também, que as tecnologias mais recentes não são inócuas – sim, também são responsáveis por emissões de gases com efeito de estufa, embora em quantidades menos nocivas para o Planeta.
Emissões de gases com efeito de estufa ao longo do ciclo de vida dos veículos de passageiros com dimensão média mais comuns, equipados com motor de combustão interna, a gasolina, e os veículos elétricos a bateria. A comparação é feita com base nas projeções de veículos registados, em 2030.
O impacto da produção de veículos elétricos não é inofensivo, seja ele no ambiente, na paisagem ou na sociedade. Seja veículo a combustão, seja veículo elétrico, são ambos poluentes, mesmo que concluamos que os veículos elétricos tenham vantagens relativamente aos veículos dependentes dos combustíveis fósseis e possam vir tanto a diminuir a poluição nas cidades como a reduzir as emissões de CO2.
Recentemente, a AIE recomendou a Portugal que apoiasse a compra de veículos elétricos usados para ajudar a descarbonizar o setor dos transportes e reduzir as emissões de CO2, sublinhando, contudo, que “a forma mais sustentável de Portugal reduzir o consumo de petróleo e as emissões passa pela transferência modal do automóvel particular para os transportes públicos, a ferrovia, as deslocações a pé e de bicicleta”.
Este é um exercício parte da técnica de “prebunking”, a qual tenta antecipar as narrativas ou alegações falsas e manipuladas com que podemos vir a deparar-nos. É um exercício difícil e tem os seus riscos: pode lançar, sem fundamentação, novos temas na arena pública, acabando por semear alarmismo, polarização ou desconfiança, ao materializar narrativas que não viriam a tornar-se relevantes.
Apesar das lacunas identificadas, concluiu-se com mais certeza que é importante prever que tentativas de manipulação podem estar prestes a ser difundidas, apresentando o conteúdo falso que está por surgir (ou que já surgiu e poderá ganhar novo ímpeto) e explicando o porquê de ele ser falso, com uma resposta preventiva. Dessa forma, acredita-se que, quando se estiver perante uma informação falsa, a resistência à manipulação será maior.
Este artigo foi desenvolvido ao abrigo do projeto “Prebunking at Scale”, com o apoio da EFCSN – European Fact-Checking Standards Network.