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Miguel Judas

Como ser mais sustentável num festival de verão?

8 Jul 2024 - 09:00
Em plena época alta dos festivais de música, o mais difícil parece ser decidir quais os espetáculos e os artistas a não perder, mas podemos sempre pensar um pouco mais além, até porque se a sustentabilidade está presente em tudo, participar neste tipo de eventos também tem um preço, que ainda assim pode ser minimizado pelas escolhas individuais de cada um

Conhecer as condições oferecidas em recinto

É importante informarmo-nos sobre quais as preocupações ambientais de cada organização. Por vezes, pequenos detalhes como ser ou não permitido levar uma garrafa reutilizável para encher de água, fazem toda a diferença e são um sinal verde em direção a um festival mais sustentável. A checklist poderá incluir ainda itens como a existência de bebedouros, sanitas secas ou a existência de alternativas de transportes coletivos para o recinto. Em suma, ter em conta tudo aquilo que possa permitir baixar a pegada ecológica de um festival de música, que segundo um estudo feito no ano passado na universidade de Groningen, na Holanda, emite, em média, 500 toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera, ou seja, cerca de 25kg por cada festivaleiro.

No que à gestão de resíduos diz respeito, o limite aos plásticos de uso único é já uma realidade, devido à legislação europeia, tal a disponibilização de contentores para reciclagem. Quanto à eficiência energética, ainda há um longo caminho a percorrer, pois as alternativas aos combustíveis fósseis representam um custo muito elevado em termos de produção do festival, não sendo ainda são muito utilizadas.

De qualquer forma e consoante uma investigação realizada em 2020 pela universidade de Glasgow no festival inglês de Glastonbury, um dos maiores da Europa, “7% das emissões de carbono de um festival de música resultam do lixo, 13% do consumo de energia e 80% do público”, pelo que todos os pequenos gestos contam para diminuir esta pegada.

 

É importante informarmo-nos sobre quais as preocupações ambientais de cada organização. A checklist poderá incluir ainda itens como a existência de bebedouros, sanitas secas ou a existência de alternativas de transportes coletivos para o recinto.

Utilizar transportes públicos

Apesar de quase todos os grandes festivais em Portugal terem sistemas de transporte coletivo para facilitar a chegada do público, a escolha de como se chega ao recinto ainda tem mais em conta fatores como preço, conforto ou rapidez, todos eles, segundo o estudo acima citado, ainda considerados “mais importantes que o da sustentabilidade”. Portanto e mesmo se a conveniência for o único critério tido em conta, há sempre a possibilidade de se optar por um serviço de táxi, TVDE ou até de partilhar um carro com amigos, reduzindo assim não só a poluição gerada como o tráfego (e consequente caos) na zona em questão.

Apesar de quase todos os grandes festivais em Portugal terem sistemas de transporte coletivo para facilitar a chegada do público, a escolha de como se chega ao recinto ainda tem mais em conta fatores como preço, conforto ou rapidez.

Consumir de forma consciente

De acordo com um outro estudo, este realizado em Portugal, pela Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Oliveira do Hospital, “82% dos frequentadores de festivais consideram importante ou muito importante que um festival seja ambientalmente sustentável”, e 33% afirmam mesmo considerar esse critério na hora de escolher o festival. Talvez por isso, a maioria das bancas de comes e bebes já disponibiliza material reutilizável, como copos ou pratos à caução (restituída mediante a devolução do material).

No entanto e apesar desta manifestação de interesse por parte do público, a maioria das pessoas que vai as festivais, ainda conforme o estudo da ESTGOH Sustentável, “não sabe se os produtos são da época” (76%), “desconhece a origem dos alimentos” (65%), “desconhece se o destino do desperdício alimentar é utilizado para compostagem ou fertilizante” (79%) e “ignora se o desperdício alimentar é doado a instituições ou pessoas carenciadas” (76%). Mesmo assim pode-se sempre diminuir a pegada ecológica adotando ações tão simples como evitar o desperdício alimentar ou optar por uma refeição vegetariana.

Pode-se contribuir para diminuir a pegada ecológica dos festivais adotando ações tão simples como evitar o desperdício alimentar ou optar por uma refeição vegetariana.

Recusar brindes

São desde há muito um clássico dos festivais, mas na verdade acabam quase todos e invariavelmente no lixo apenas uns dias depois. Referimo-nos àqueles brindes publicitários que provocam filas enormes e na maior parte das vezes não passam de um amontoado de plástico inútil, que é só a representação física da enorme pegada ecológica do seu processo de produção. Não é de admirar, portanto, que já haja festivais a limitar as ofertas ou a apresentar um caderno de encargos aos patrocinadores sobre o tipo de brindes permitidos, provando, mais uma vez, que o poder de pressão do público é soberano. E nem custa muito: basta dizer não, até porque as melhores recordações de um festival ficam na memória (nem que seja de um telemóvel) e não esquecidas no fundo de uma gaveta.

As melhores recordações de um festival ficam na memória (nem que seja de um telemóvel) e não esquecidas no fundo de uma gaveta.

Sugerir melhorias

A maior parte dos grandes festivais de verão tem canais de comunicação abertos com o público ao longo de todo ano, pelo que se a organização de alguma forma falhou em termos de garantir uma maior sustentabilidade do evento, pode-se sempre entrar contacto com os responsáveis e propor as respetivas melhorias. Por muito surpreendente que possa parecer, até costuma resultar.