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Nysse Arruda

Pesca sustentável: Arte Xávega de Espinho, um Património Cultural Imaterial

10 Jul 2025 - 10:00

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A tradicional Arte Xávega de Espinho está agora registada no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (INPCI), em regime de Salvaguarda Urgente, conforme documento aprovado pelo Património Cultural (IP) e publicado em Diário da República. É um passo significativo para reconhecer a relevância desta manifestação que remonta à segunda metade do século XVIII.

Arte tradicional de pesca sustentável, a Arte Xávega com suas características particulares é uma manifestação cultural imaterial do concelho de Espinho. Agrega também uma profunda dimensão religiosa na vida dos pescadores de Espinho que realizam festas em honra de São Pedro, Nossa Senhora do Mar e Nossa Senhora da Ajuda.

 As atuais dificuldades na transmissão dos conhecimentos associados a esta prática colocam em risco a sua continuidade. A necessidade de medidas de salvaguarda e sustentabilidade, visando a viabilidade futura da Arte, motivou a decisão de inventariar a Arte-Xávega em Espinho no regime de Salvaguarda Urgente, depois do resultado de um processo de investigação no terreno conduzido em estreita colaboração com a comunidade envolvida.

A Arte-Xávega é um tipo de pesca tradicional que utiliza uma rede de cerco envolvente, que é lançada ao mar e depois puxada para terra. Esta pesca de cerco e alar em litorais arenosos e a pouca distância da praia é das mais básicas formas de pesca no mar.

É um tipo de pesca que existe desde as civilizações pré-clássica e clássica do Mediterrâneo e que, durante a ocupação muçulmana da Península Ibérica, aparece com a designação de “Xábaka”, com a sua expansão pela Andaluzia (Espanha) e o Algarve a originar novas expressões como “Jábega”, “Xávega” ou “Enxávega”.

A Arte-Xávega é um tipo de pesca tradicional que utiliza uma rede de cerco envolvente, que é lançada ao mar e depois puxada para terra.

A “Arte” como é designado o conjunto constituído por cordas, alares e saco, é largada pelos pescadores de bordo de uma embarcação que deixa um dos cabos na praia e que, após o lançamento da rede em alto mar, regressa à praia trazendo o outro cabo de alagem.

Depois de ambas as cordas estarem na praia inicia-se a alagem, puxando a rede para a praia e mantendo a boca do saco aberta com recurso à utilização de bóias e de pesos. Inicialmente a alagem era efetuada à mão, depois com tração animal e atualmente é realizada com tratores a motor. A Xávega termina com a chegada a terra e a abertura do xalavar (saco de rede de forma cónica) que contém a pescaria.

Trazida por comunidades piscatórias do concelho de Ovar, a Arte Xávega deu origem ao povoamento de Espinho e ao longo dos últimos 250 anos foi evoluindo num conjunto de meios operacionais e técnicas específicas que a diferenciam em relação a outros tipos de pesca.

O termo xávega era originalmente usado apenas pelos pescadores do Algarve e tanto designava a rede como o próprio barco. No litoral Centro e Norte, o termo era simplesmente “as Artes” ou “campanhas de Arte” e a prática ainda persiste em algumas praias como na Nazaré, Aveiro, Leiria e Costa da Caparica.

Inicialmente a alagem era efetuada à mão, depois com tração animal e atualmente é realizada com tratores a motor.

Dadas as condições naturais da praia de Espinho e a proximidade à Ria de Aveiro, o desenvolvimento sustentável da faixa litoral permite conciliar valores ecológicos e patrimoniais e oportunidades turísticas e de recreio, com a Arte-Xávega a assumir-se como uma das atividades mais identitária do concelho.

A Praia dos Pescadores, situada na Marinha de Silvalde, acolhe atualmente a principal zona de pesca da Arte-Xávega. Trata-se de uma praia com extenso areal, protegida por um esporão e banhada por massas de água e de ar de características oceânicas.

Com os ventos do quadrante Norte – a famosa Nortada – as águas superficiais são empurradas para o largo, permitindo a subida das águas profundas, mais frias e ricas em nutrientes, sobretudo de plâncton, o que traz abundância de várias espécies de peixes como a sardinha, o boqueirão, o carapau, a faneca, a sarda, a boga, o chicharro e a cavala.

A pesca com Arte-Xávega é considerada uma atividade identitária do concelho de Espinho.

Atualmente, os barco tradicionais para a arte xávega já são construídos por poucos mestres carpinteiros. Os que ainda se dedicam a este ofício estão sobretudo concentrados em Mira e Pardilhó, no distrito de Aveiro. A embarcação, de madeira, tem fundo plano, próprio para deslizar na areia, com a proa e a popa altas para vencer as ondas. Com comprimento em torno dos 4,5 m, largura de 2,5 m e pontal de 0,75 m, o barco conta com uma tripulação entre 8 a 12 homens.

Outrora as redes eram fabricadas manualmente em fio de linho e tingidas com casca de raiz de pinheiro, para se tornarem escuras e não serem percetíveis pelos cardumes de peixes. Já as bóias eram feitas com bexigas de porco, os flutuadores eram placas de cortiça e as cordas eram de sisal e impermeabilizadas com alcatrão.